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Saúde

Brasil é uma potência mundial em transplantes. Por que tanta gente espera por um rim?

Guarulhos

Publicada em 29/07/2026 às 06:03h - 53 visualizações Jovem Pan News

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Brasil é uma potência mundial em transplantes. Por que tanta gente espera por um rim?
SGTVS / Tv Gru Web  (Foto: Michelle ROSE / Massachusetts General Hospital / AFP)

A nefrologista Dra. Carlucci Ventura explica por que o maior desafio não é apenas transplantar mais, mas aumentar a doação e reduzir o desperdício de órgãos que poderiam salvar vidas.

Quando se fala em transplantes, é comum imaginar que os países mais ricos lideram esse tipo de tratamento. Mas pouca gente imagina que o Brasil seja uma das maiores potências mundiais em transplantes. Com cerca de 6 mil transplantes renais realizados por ano, o país é o segundo em número absoluto de procedimentos, atrás apenas dos Estados Unidos, e possui o maior programa público de transplantes do planeta, financiado majoritariamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Esse é um motivo de orgulho para a medicina brasileira. Todos os anos, milhares de pessoas recebem uma nova oportunidade de vida graças ao transplante de rim, fígado, coração, pulmão e outros órgãos.

Mas existe um paradoxo. Apesar dessa estrutura consolidada, milhares de brasileiros continuam aguardando por um transplante de rim, muitos deles dependentes de hemodiálise enquanto aguardam pela ligação que pode transformar suas vidas. O principal obstáculo não é a capacidade de realizar transplantes. A medicina dispõe de profissionais experientes, tecnologia e centros altamente qualificados. O que ainda falta, na maioria das vezes, é o órgão que pode salvar aquela vida. Em outras palavras, a medicina está pronta. O desafio continua sendo ampliar a doação de órgãos e transformar a solidariedade em mais uma oportunidade para quem espera.

Um sistema eficiente, que depende da doação

O transplante só é possível quando existe um órgão disponível. E esse continua sendo o maior desafio. A maior parte dos transplantes renais é realizada com órgãos provenientes de doadores falecidos. Para isso, é necessário que seja confirmado o diagnóstico de morte encefálica, uma condição caracterizada pela perda completa e irreversível de todas as funções do cérebro. Este diagnóstico segue protocolos rigorosos, definidos pela legislação brasileira e realizados por profissionais altamente habilitados. Não há espaço para dúvidas: a morte encefálica é um diagnóstico de morte.

Mesmo quando todos os critérios médicos e legais são cumpridos, a doação depende da autorização da família. É neste momento que enfrentamos os maiores obstáculos. Muitas famílias recusam a doação por insegurança, falta de informação ou porque nunca conversaram sobre este tema com seu familiar.

É importante esclarecer que a morte encefálica não é o mesmo que o coma. No coma, o cérebro mantém alguma atividade e pode existir a possibilidade de recuperação. Na morte encefálica, todas as funções do cérebro cessaram de forma definitiva e irreversível.

Quando a família compreende esse processo e conhece o desejo da pessoa em vida, a decisão costuma ser mais segura. Um único doador pode beneficiar várias pessoas, oferecendo uma nova oportunidade de vida a pacientes que aguardam por um transplante de rim e outros órgãos.

Por que a fila para um rim é mais longa?

Para quem convive com a doença renal crônica em estágios avançados, o transplante renal representa muito mais do que o fim da diálise.

A diálise é um dos melhores avanços da medicina. Ela substitui parte das funções renais e mantém milhares de pessoas vivas todos os dias. No entanto, para a maioria dos pacientes que não apresentam contraindicações, o transplante renal continua sendo o melhor tratamento disponível, proporcionando maior sobrevida, melhor qualidade de vida, mais liberdade no dia a dia e menor risco de diversas complicações.

O desafio é que a necessidade de transplantes cresce mais rapidamente do que a disponibilidade de órgãos. Por isso, o rim permanece como o órgão com maior número de pacientes em lista de espera no Brasil.

Uma alternativa importante é o transplante com doador vivo. Como é possível viver de forma saudável com apenas um rim, pessoas cuidadosamente selecionadas podem doar para um familiar ou outra pessoa com quem tenham vínculo, desde que permitido pela legislação brasileira. Além de reduzir o tempo de espera, o transplante com doador vivo costuma apresentar excelentes resultados e pode ser realizado de forma planejada, beneficiando tanto o receptor quanto a organização do tratamento.

Informação também salva vidas

Nos últimos anos, o Brasil consolidou um dos programas de transplantes mais eficientes do mundo. O investimento na formação de equipes e na logística de captação e distribuição de órgãos permitiu que milhares de pessoas recebessem uma nova oportunidade de vida.

Mas este sistema só funciona quando existe um doador. Por isso, a informação e conscientização da população continuam sendo tão importantes quanto os avanços da medicina.

Conversar sobre doação de órgãos em família é uma atitude simples, mas que pode fazer toda a diferença. Como a decisão final cabe aos familiares, conhecer o desejo da pessoa em vida torna este momento menos difícil e aumenta as chances de que sua vontade seja respeitada.

O Brasil já mostrou que tem competência para realizar transplantes de excelência. Agora, o maior desafio é garantir que mais pessoas tenham a oportunidade de recebê-los. A medicina já sabe como salvar muitas dessas vidas. O próximo passo começa com uma conversa em família sobre doação de órgãos.

 

 

Dra. Carlucci Ventura CRM/SP 75746
Nefrologista
Membro da International Society of Nephrology
Membro da Brazil Health




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