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Além da perda de peso, usuários de medicamentos como semaglutida e tirzepatida relatam alterações no desejo sexual, na autoestima e até na dinâmica dos relacionamentos. Parte dessas mudanças pode ter explicação metabólica e neurológica.
Os medicamentos para emagrecimento à base de GLP-1, como Ozempic e Mounjaro, transformaram o tratamento da obesidade e do diabetes nos últimos anos. Mas, à medida que milhões de pessoas passaram a utilizar essas medicações no mundo, começaram a surgir relatos que vão além da balança.
Mudanças na libido, no desejo sexual, na autoestima e até no comportamento emocional passaram a aparecer com frequência crescente em consultórios e redes sociais.
Alguns pacientes relatam melhora importante da vida sexual após o emagrecimento. Outros descrevem redução do desejo, menor interesse sexual ou alterações emocionais inesperadas durante o tratamento.
A ciência ainda está tentando entender completamente esse fenômeno. Mas uma coisa já parece clara: esses medicamentos não atuam apenas no estômago ou no controle do apetite. Eles também possuem efeitos relevantes sobre metabolismo, cérebro e sistema de recompensa.
A obesidade está associada a diferentes alterações hormonais e metabólicas capazes de afetar diretamente a sexualidade.
Resistência à insulina, inflamação crônica, hipertensão, diabetes, apneia do sono e doenças cardiovasculares frequentemente impactam libido, disposição e desempenho sexual tanto em homens quanto em mulheres.
Por isso, quando ocorre perda significativa de peso, muitas dessas funções podem melhorar.
Diversos estudos mostram que emagrecimento associado à melhora metabólica tende a favorecer níveis hormonais, circulação sanguínea, disposição física e autoestima corporal – fatores diretamente ligados à sexualidade.
Nos homens, a redução de gordura visceral pode contribuir para melhora da testosterona e da função erétil.
Já em mulheres, melhora metabólica e redução de inflamação podem influenciar energia, bem-estar e percepção corporal.
Além disso, pacientes que perdem peso frequentemente relatam aumento da confiança, melhora da autoimagem e maior segurança nas relações íntimas.
Isso ajuda a explicar por que muitas pessoas descrevem aumento da libido após iniciar o tratamento.
Embora parte dos pacientes relate melhora da vida sexual, outros descrevem efeito oposto.
Existem relatos de diminuição do desejo sexual, redução do interesse afetivo e até sensação de “apatia” emocional durante o uso dessas medicações.
Ainda não existe resposta definitiva para isso. Mas especialistas acreditam que diferentes fatores podem estar envolvidos.
Um deles é o próprio impacto emocional da transformação corporal. Emagrecer rapidamente pode modificar autoestima, dinâmica dos relacionamentos e percepção da própria identidade.
Outro ponto importante é que o desejo sexual não depende apenas de hormônios. Aspectos emocionais, psicológicos, relacionais e neurológicos também exercem enorme influência.
Além disso, os medicamentos da classe GLP-1 atuam diretamente em áreas cerebrais relacionadas ao prazer, impulsividade e recompensa.
Isso levantou uma hipótese interessante entre pesquisadores: será que essas medicações modulam não apenas a fome, mas também outros comportamentos ligados ao sistema de recompensa cerebral?
Os receptores de GLP-1 não estão apenas no sistema digestivo. Eles também estão presentes em regiões do cérebro relacionadas ao controle do apetite, prazer, motivação e comportamento compulsivo.
Nos últimos anos, pesquisas começaram a investigar se medicamentos como semaglutida e tirzepatida poderiam influenciar outros impulsos além da alimentação.
Existem estudos em andamento avaliando possíveis efeitos sobre consumo de álcool, compulsão alimentar, tabagismo e até padrões de comportamento relacionados ao prazer e recompensa.
Isso não significa que essas medicações “desliguem” automaticamente o desejo sexual. Mas sugere que seus efeitos neurológicos podem ser mais amplos do que se imaginava inicialmente.
Ainda faltam estudos robustos especificamente voltados à sexualidade humana nesse contexto. Grande parte das informações atuais vem de relatos clínicos, observações de pacientes e hipóteses neurobiológicas em investigação.
Por isso, é importante evitar conclusões simplistas ou generalizações.
Cada organismo reage de forma diferente ao emagrecimento e às medicações.
O mais importante é entender que sexualidade também faz parte da saúde metabólica, emocional e hormonal. E quando o corpo muda profundamente – seja física ou neurologicamente – é natural que desejo, prazer e relações afetivas também possam sofrer transformações.
Dr. Marcos Tobias Machado – CRM/SP 75.225 | RQE 63664
Urologista
Doutor em Medicina pela USP
Membro da Brazil Health