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Saúde

Doação de órgãos: uma conversa em vida pode salvar várias vidas depois da morte.

Guarulhos

Publicada em 11/09/2026 às 08:30h - 64 visualizações Jovem Pan News

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Doação de órgãos: uma conversa em vida pode salvar várias vidas depois da morte.
SGTVS / Tv Gru Web  (Foto: Magnific)

Quase metade das famílias ainda recusa a doação de órgãos no Brasil. No Setembro Verde, o clínico geral Dr. Alfredo Salim explica por que manifestar esse desejo aos familiares pode fazer diferença e como informação e diálogo ajudam a transformar uma decisão difícil em possibilidade de vida.

Falar sobre a própria morte não costuma fazer parte das conversas familiares. Podemos discutir planos para o futuro, tratamentos que aceitaríamos diante de uma doença grave e até organizar questões financeiras para depois que não estivermos mais aqui, mas raramente nos sentamos à mesa para dizer algo muito simples: “Se um dia for possível, quero ser doador de órgãos”.

No Brasil, essa conversa tem uma importância especial. Não basta desejar ser doador. Pela legislação, a retirada de órgãos e tecidos após a morte depende da autorização da família. Mesmo que uma pessoa tenha manifestado claramente em vida a intenção de doar, seus órgãos não poderão ser retirados se os familiares não autorizarem. Por isso, talvez a atitude mais importante de quem deseja ser doador seja também a mais simples: contar essa decisão às pessoas próximas.

A questão ganha ainda mais relevância durante o Setembro Verde, mês de conscientização sobre a doação de órgãos, e em 27 de setembro, Dia Nacional da Doação de Órgãos. Dados apresentados pelo Ministério da Saúde mostram que a recusa familiar permanece próxima de 45% dos casos e continua sendo um dos principais obstáculos para aumentar o número de doadores no país.

O Brasil realiza um grande número de transplantes em termos absolutos, impulsionado também pelo tamanho de sua população e pela estrutura do Sistema Único de Saúde. Quando os números são analisados proporcionalmente ao número de habitantes, porém, o país ainda fica atrás de nações com taxas de doação e transplante mais elevadas, mostrando que existe espaço importante para avançar.

Por que é tão difícil dizer sim?

É preciso compreender em que circunstâncias essa decisão normalmente chega à família. Ninguém se prepara para receber a notícia de que alguém próximo morreu e, pouco depois, precisar responder se autoriza a doação de seus órgãos. É um momento de choque, sofrimento e dificuldade para assimilar informações.

Um dos pontos que ainda provoca dúvidas é o conceito de morte encefálica. Ela corresponde à perda completa e irreversível das funções do cérebro e significa que a pessoa morreu. O fato de o coração ainda poder bater temporariamente com suporte de aparelhos pode criar, para quem está ao lado do leito, a impressão de que ainda existe alguma possibilidade de recuperação.

O diagnóstico, entretanto, segue um protocolo médico rigoroso e critérios estabelecidos pelo Conselho Federal de Medicina. São realizadas avaliações específicas por médicos capacitados para confirmar a perda irreversível das funções encefálicas. Uma vez estabelecida a morte encefálica, não existe possibilidade de o paciente voltar à vida.

Desinformação, medo, crenças, dúvidas sobre o diagnóstico e o próprio impacto emocional daquele momento podem influenciar a decisão dos familiares. É muito diferente perguntar a alguém que nunca conversou sobre o assunto se deseja doar os órgãos de uma pessoa querida e perguntar a uma família que já ouviu daquela pessoa, em vida, que esse era o seu desejo.

Um doador pode beneficiar várias pessoas

A dimensão da decisão também nem sempre é conhecida. Dependendo das condições clínicas e das circunstâncias da morte, um único doador pode possibilitar transplantes de diferentes órgãos, como coração, pulmões, fígado, rins, pâncreas e intestino, além de tecidos como córneas, pele, ossos, tendões, vasos e valvas cardíacas.

Isso significa que uma decisão tomada por uma família em um dos momentos mais dolorosos de sua história pode representar uma nova possibilidade de vida ou de recuperação para várias outras pessoas.

Também existem muitos mitos em torno do processo. A doação não modifica o cuidado oferecido ao paciente antes da morte, e as equipes responsáveis pelo diagnóstico e tratamento seguem critérios independentes da eventual possibilidade de transplante. A retirada dos órgãos ocorre em centro cirúrgico, com técnicas próprias, e o corpo é reconstruído e liberado à família.

Essa conversa também pode acontecer no consultório

Doação de órgãos costuma ser lembrada quando ocorre uma campanha ou quando uma família vive diretamente a situação. Mas talvez devêssemos falar sobre o assunto muito antes disso.

O médico clínico acompanha pessoas ao longo de anos e conversa sobre prevenção, envelhecimento, doenças crônicas, escolhas de vida e decisões relacionadas à própria saúde. A doação pode fazer parte dessas conversas. Não para convencer alguém a ser doador, mas para oferecer informação suficiente para que cada pessoa possa tomar sua decisão e, principalmente, compartilhá-la com quem poderá ser chamado a respeitá-la no futuro.

Falar sobre a morte não significa esperar por ela. Em medicina, conversamos sobre testamentos vitais, cuidados paliativos e preferências diante de situações graves justamente porque respeitar a autonomia também significa permitir que decisões importantes sejam discutidas enquanto existe tempo e tranquilidade para fazê-lo.

No caso da doação de órgãos, há ainda uma particularidade: a decisão que expressamos hoje pode determinar se outras pessoas terão uma oportunidade amanhã.

Se você deseja ser doador, não é necessário esperar pelo Dia Nacional da Doação de Órgãos nem fazer um grande anúncio. Escolha um momento tranquilo e diga à sua família.

Pode ser uma conversa de poucos minutos. Um dia, porém, ela poderá ajudar seus familiares a tomar uma das decisões mais difíceis de suas vidas — e permitir que outras vidas continuem.

Dr. Alfredo Salim Helito – CRM/SP 43163 | RQE 132808
Clínica Médica
Membro do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês
Head nacional de Clínica Médica da Brazil Health




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